Sobre uma gastrite que vira úlcera

…e sobre uma úlcera que vira câncer no estômago.

Não, paciente leitor, eu não estou morrendo. Estou apenas parando para analisar a linha tênue em que me encontro entre a neurose e a psicose. Eis que estava eu sentada assistindo tv com a minha amada avó e resolvo reclamar de uma dor e sensação de queimação no estômago que me aflige já há alguns dias. Então minha amada (e exagerada) avó começou a me questionar e pedir detalhes sobre essa tal dor. Depois de me interrogar até a exaustão, ela dá o veredito de que eu preciso falar com minha mãe e marcar um médico, porque eu, pobrezinha de mim, era muito doente quando criança e temos que sempre ficar de olho nisso. Ela terminou o discurso com um “provavelmente é gastrite” e me fez tomar um copo de leite gelado (sem Nescau).

Tomei o leite a contragosto e voltei para a minha toca, também conhecido como quarto, e me peguei pensando e criando quadros mentais catastróficos. Nesses quadros mentais eu me imaginei chorando enquanto o médico me falava que eu estava com um câncer no estômago extremamente raro e inoperável, que tudo que eu podia fazer era tentar aproveitar o pouco tempo que me restava.

Então eu me imaginei em diversas situações, fazendo as coisas mais improváveis, viajando pelo mundo durante os meus últimos 3 meses de vida. No final eu morria segurando as mãos do recém-descoberto amor da minha vida, com as minhas últimas palavras sendo: “Por favor, publique minhas memórias.” É nesse momento que meu devaneio se torna póstumo: eu imagino meu próprio velório, penso na reação das pessoas com a notícia da minha morte e tenho a frieza de pensar em como todos seriam hipócritas: pessoas que não gostavam de mim ou não sabiam da minha existência passariam a falar da minha nobreza, de como eu perdi essa luta contra o câncer. Tão nova, com tanta vida pela frente.

O devaneio termina com um close no livro adaptado a partir dos meus diários (“Comecei a viver quando soube que estava morrendo“) na prateleira de uma livraria. Tudo isso com uma trilha sonora escolhida a dedo e efeitos de luz. Finalmente voltei ao mundo real e palpável e pensei na maneira estranha como eu enxergo o mundo. Se eu escapo da realidade com muita frequência? Mas é claro. Sempre que meu olhar ficar muito distante e vidrado pode apostar que tem alguma história maluca sendo contada na minha mente. Se isso me faz bem? Talvez não. Evitar a realidade nunca faz bem, qualquer psicólogo que se preze pode confirmar minhas palavras.

Mas é isso que eu faço, eu evito a realidade. Eu tenho pelo menos cinco roteiros fixos na minha cabeça e dou continuidade a eles todos os dias. Histórias paralelas são sempre bem-vindas. Uma situação desagradável na vida real? Vamos para o meu lugar seguro, já que por lá minha palavra é a lei.

Às vezes tenho medo de confundir e misturar esses dois mundos, de passar a achar que a minha imaginação é na verdade a realidade. Admito que tenho medo de enlouquecer e penso nisso com mais frequência do que uma pessoa normal deveria. Ao mesmo tempo sei que se tivesse que abrir mão de todo o meu universo imaginário,= eu não seria capaz de suportar viver apenas da realidade. Entre a cruz e a espada. Entre a neurose da realidade e a psicose dos sonhos. Depois ainda me perguntam porque sou instável.

Talvez eu devesse procurar a ajuda de um psicólogo. Ou talvez eu devesse criar uma história de uma garota que procura um psicólogo e tem descobertas incríveis a respeito de si mesma. Eu fico com a segunda opção.

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2 Responses to “Sobre uma gastrite que vira úlcera”


  1. 1 Rafaela 06/03/2013 at 18:13

    Bem, admito ter lido com muita pressa pra saber se você estava bem rsrs
    Ah, nem ligue, olha, penso por mim. Se for a um psicologo ele ira me diagnosticar como louca. Sem duvidas. Dai ele vai me dar um sorrisinho e dizer que está tudo bem, mas sem que eu perceba vai passar mandar a receita pra minha mãe do meu remedinho amigo…
    Viajei rsrs
    Mas enfim, o mundo é chato demais, é totalmente aceitável “sair um pouco da casinha”, alias, faça isso. Vai por mim.
    Seus textos são maravilhosos
    Beijos

    • 2 mariellapops 09/03/2013 at 16:24

      Eu acho que no fundo você tem razão. E o problema é que eu não gosto de psicólogos, acho chato, então terei que continuar vivendo com a minha “loucura” rs.
      Obrigada pelo elogio 🙂
      Beijos!


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